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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Redes sociais: qual o limite entre o público e o privado?

As relações interpessoais configuram uma das principais necessidades humanas. Pertencer e ser aceito em um grupo é questão de sobrevivência desde nossa época das cavernas. E por falar nisso, seriam as redes sociais uma espécie de "mito da caverna moderno"? Qualquer semelhança (e alienação) não é mera coincidência. 

Observamos há algum tempo através da mídia shows de realidade(?) nos moldes de zoológico humano. Parece que acompanhar a vida alheia exerce certo fascínio e curiosidade e, da mesma forma, a exposição em redes sociais também segue tal premissa com uma boa dose de exibicionismo e voyerismo. A pergunta que não quer calar: por que em tais redes as pessoas partilham aspectos tão íntimos e pessoais da própria vida de forma tão comprometedora? Será que a banalização da vida alheia em tais "shows de irrealidade" nas mídias se incorporou à sociedade, fazendo-nos desvalorizar e tornar impessoal coisas tão pessoais e íntimas? Parece que as pessoas querem fazer uma espécie de big brother de suas próprias vidas. E com uma bela floreada...

Pesquisas recentes apontam que as redes sociais causam depressão. Não é difícil imaginar porque isso ocorre. A impressão que fica é que se vende um personagem criado para interagir virtualmente, projetando uma versão a qual é aceita: "a melhor versão de si mesmo". Na realidade virtual das redes sociais existe uma estética maravilhosa, tudo é belo, todo mundo é bonito, mega legal, as fotos são escolhidas a dedo: estar com a galera, festas, baladas, viagens, família margarina, ostentação de aquisições materiais, tudo de acordo com o que é ditado socialmente. Talvez, mais importante do que as pessoas digam, seja o que querem dizer... Penso ser necessária a reflexão sobre tal dinâmica de funcionamento de forma mais intrínseca.
  
Possivelmente a necessidade humana de pertencimento, aceitação e amparo fundamente a exposição exacerbada a qual testemunhamos tão displicentemente nas redes sociais. O homem possui uma condição fundamental de desamparo existencial e traz consigo a consciência da insignificância da própria existência, direcionando-se na tentativa desesperada de dar sentido para uma realidade sem sentido, em busca de enquadramento e acomodação ao caos dos padrões vigentes e às regras e demandas estabelecidas socialmente. A noção do absurdo da vida clama pela necessidade imperativa de exposição, a qual se expressa nas entrelinhas afirmando que pertencemos a uma realidade aceita e aclamada. Precisamos ser aprovados, admirados e "curtidos". Porém, será que quem realmente importa está "se curtindo"? Parece que as pessoas estão o tempo todo tentando convencer e se justificar, seja através da demonstração de amor, conquistas, desafetos, desabafos, alegrias e tristezas, as quais, muitas vezes, culminam em uma exposição desnecessária e constrangedora. A dificuldade do homem em lidar com a própria solidão parece se expressar no mundo virtual e, principalmente, nas redes sociais, onde as pessoas partilham detalhes da própria vida como busca de companhia e cumplicidade. Não tem ninguém ao seu lado para te ouvir naquele momento, mas centenas de amigos que podem ver o que você expor. Desenvolvemos certa familiaridade e dependência do mundo virtual, principalmente as gerações mais jovens. Entretanto, urge a consciência de que não estamos na sala de estar de casa, e sim, em um ambiente que pode ser vulnerável. O anseio em ser aceito e acolhido não deve e não pode justificar atitudes inconsequentes. Somos responsáveis pela maneira como nos projetamos na realidade da vida e na fábula das redes sociais.


quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Responsabilidade X Culpa

     Podemos compreender responsabilidade como uma das questões centrais que atravessam a existência humana. Ao longo da vida fazemos inúmeras escolhas, enveredamos por distintos caminhos os quais cada um define em sua jornada pessoal. Contudo, toda escolha demanda a consciência da responsabilidade que esta abarca. Somos responsáveis pelas opções que fazemos e suas consequências, em uma inexorável relação de causa e efeito. Por conseguinte, tal noção de responsabilidade nos imputa determinada angústia, pois compreendemos que as consequências resultantes de nossa escolha é de nossa inteira responsabilidade, e , desta forma, inalienável. No entanto, é através da mesma consciência de responsabilização que permite o próprio viés da mudança, a capacidade de fazer novas e diferentes escolhas, ter outras concepções, ir por outros caminhos. Só depende de nós. Afinal, se somos responsáveis pelo modo como nos colocamos no mundo e na maneira como agimos, também possuímos a mesma capacidade de mudar. Um novo fazer, um outro jeito de ser, novas escolhas, outras possibilidades. Sim, somos os responsáveis por nossa própria vida.

     A culpa surge da mesma noção de causa e efeito que permeia a responsabilidade, entretanto, possui um viés disfuncional, e, muitas vezes, patológico, não permitindo-nos a superação necessária. Quando nos sentimos culpados por algo, acabamos por arrastar pesadas correntes, as quais nos paralisam. Concomitante ao sentimento de culpa, desenvolvemos uma forma de atuar no mundo que nos traz prejuízos, deixando-nos prisioneiros do remorso e da fixação de que somos culpados. Mas seria tudo tão determinístico assim?
   Através do tempo e do espaço absorvemos e incorporamos determinado conjunto de valores, regras, crenças, juízos, etc., permeados pela cultura. Somos cientes de que o resultado de um julgamento penal abrange apenas duas possibilidades: o veredito é culpado ou inocente, não existindo meio termo. Incorporamos também, entre muitos outros, os valores religiosos que atravessam nossa vivência, trazendo-nos o dogma da culpabilidade através da admissão do "mea culpa", o qual carrega um simbolismo tendencioso e, diria, até mesmo, pesado: "Por minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa". Contudo, ao assumir nossa limitação como seres errôneos e falhos, assumimos também uma postura condizente com nossa condição humana.

     Em detrimento da culpa, por que não substituir esta pela consciência da responsabilidade que temos por nossos atos, nossos caminhos, nossa vida? A responsabilidade nos institui a capacidade de um novo e constante fazer e refazer. O sentimento de culpa é uma alternativa que nos imputamos e dificilmente nos permite transcender a um nível produtivo sem causar danos. Entretanto, estar ciente de que somos responsáveis nos direciona para um diálogo possível e necessário entre a reflexão e nossas ações, proporcionando-nos outras possibilidades. Responsabilidade é uma condição inerentemente humana, e, assim como somos responsáveis por algo que pode não ter tido o resultado pretendido ontem, também nos responsabilizamos pela manutenção deste ou por outros diferentes e novos resultados hoje e amanhã. O ponto essencial é: o que vamos fazer com isso?

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Sucesso


   Vivenciamos a cultura da transitoriedade e imediatismo na qual nos desdobramos ante à fugacidade dos fatos, onde o sucesso repentino e desestruturado se apresenta na notoriedade dos 15 minutos de fama, estabelecendo-se, principalmente, através da exposição ampla nos vários canais da internet, dentre os quais, redes sociais, blogs, etc., assim como no mundo globalizado. Nesses termos, podemos considerar que o sucesso ocorre de maneira democrática, onde cada qual se expõe como quer e fala o que quiser, havendo então, uma seleção natural segundo às demandas vigentes.

   Observarmos a necessidade do sucesso nosso de cada dia e a busca de tal valoração não circunda apenas em ser notado e reconhecido, mas também reverenciado e exaltado. Algumas pessoas precisam de notoriedade, estar em foco e "brilhar". Sem dúvida, é natural se destacar através de determinada capacidade, eficiência, aparência, dom, aptidão, atributo, etc. Sim, a velha questão da meritocracia, entretanto, o modo pelo qual o sucesso é interpretado e atribuído que considero cansativo.   

   Uma curiosidade: por que as pessoas fazem tanta questão de sucesso? É comum observarmos que o valor de alguém seja estabelecido em relação ao sucesso que possui em determinada área, não importa qual esta seja.

    Uma confissão: existem determinadas ocasiões comemorativas em que as pessoas costumam fazer votos de, entre outras coisas, sucesso. Aí, penso comigo: "por que não desejar apenas felicidade, realizações, saúde, coisas boas, etc... ?" 

   Elaborando um paradoxo, bem viajandão, admito, ao nos sobressairmos não implica necessariamente em ter sucesso. Ser bem sucedido traduz-se em obter um resultado positivo dentro daquilo em que alguém se propõe. Fazer bem feito, diria, e ser bem resolvido em relação à tal atribuição. Ser responsável em produzir algo bem sobre o qual se obtém um resultado esperado, deve ser, em primeira instância, uma realização pessoal longe da avaliação de terceiros. Ter consciência do mérito e eficiência próprios deve ser motivo para que uma pessoa se considere bem sucedida. Realizada.

  Contudo, sem demagogia, parece que apenas tal realização pessoal não é suficiente, pois prima-se pelos holofotes. Há indivíduos que necessitam do amplo reconhecimento o qual o sucesso proporciona. Buscam estar sempre em destaque, e, ser bom não basta mas precisam ser "o melhor". Muito jogo de cintura para lidar com tanta vaidade. Talvez um olhar mais abrangente nos permita compreender a necessidade de aceitação, aprovação e reconhecimento amplo do outro. Necessidade de corresponder às expectativas. E como tais expectativas podem ser exigentes! As pessoas as quais buscam tal idealização acabam por tornar-se cansativas para com aquelas que convivem consigo, pois estão sempre procurando se destacar em uma competitividade exaustiva e que lhes proporcione notoriedade e sucesso. Enquanto seres sociais, o olhar do outro também nos constitui, contudo, não deve ser determinante. Quando alguém é ciente e seguro de suas potencialidades, não precisa ficar sendo exaltado e reconhecido publicamente como observamos comumente à nossa volta, onde lemos implicitamente: "me admirem, me amem..."


   Por favor, não me desejem sucesso, mas felicidades e realizações. Se o sucesso vier, será apenas uma inesperada e desapegada consequência. 

domingo, 16 de junho de 2013

Cara metade ou inteira?

       Em tempos em que o amor é cantado em verso, prosa e comerciais de tevê, quem não está em um relacionamento nessa época acaba por sentir-se destoado, descontextualizado. No dia dos namorados celebramos o amor, aquela época especial onde o romance fica em alta, a troca de afeto, carícias e atenção toma uma conotação especial. Ah... o amor! Amar pode ser muito bom, ter alguém para aconchegar-se, participar nossa vivência, nossas pequenas coisas. Partilhar...

     Alma gêmea, outra metade da laranja, tampa da panela, cara metade e tantas outras definições quanto nossa imaginação permitir. A problemática começa justamente quando atribuímos ao outro a expectativa da completude que é nossa, delegando a este a responsabilidade pela própria felicidade. No entanto, felicidade é um bem intransferível e inalienável, isentando qualquer pessoa, a não ser cada um de nós, por tal responsabilidade. Ao outro cabe apenas partilhar dela. "Apenas". Talvez seja cômodo colocar na conta de outra pessoa realizações e responsabilidades que nos competem, e, somente a nós. Da felicidade às possibilidades, as quais muitas vezes deixamos transcorrer à nossa frente para não sairmos de nossa zona de conforto.  

     Nós não somos uma metade à espera de seu equivalente, somos seres inteiros, íntegros. Se em algum momento de nossa vida buscamos completude, essa apenas depende de nós. Quando sentimos que nos falta algo, a necessidade é nossa. Encontrar alguém para nos relacionarmos não preenche vazio algum, pois este é intrínseco a cada um, de nossa própria responsabilidade e competência. Relações de co-dependência não se desenvolvem de forma plena e saudável, mas se apresentam de modo patológico, com cobranças extremas e, muitas vezes, infundadas. Atribuir a própria realização ao outro pode ser frustrante, além de alienante, afinal, ele nunca terá tal capacidade.


     Relacionamentos se estabelecem, principalmente, através da troca de afetos, da reciprocidade de sentimentos, onde cada lado necessita ceder em determinado momento. Relacionamentos não nos completam, mas complementam. Somos responsáveis pelas relações que estabelecemos, assim como pela própria felicidade. 


quarta-feira, 22 de maio de 2013

Apenas diferente...

    Sem dúvida um dos maiores desafios que nós, meros e humildes seres umanos, enfrentamos na vida é lidar com as diferenças. A convivência de contrários é uma das maiores dificuldades que atravessam nossa existência. Conceber e aceitar coisas tão diferentes de nossa própria realidade causa-nos ao menos estranhamento e, quando tomamos conhecimento de que existem outros estilos de vida diferentes do nosso, acabamos por julgar, valorando como bom ou ruim, certo ou errado, segundo nossa própria experiência. E nem me refiro à não padronização ou bizarrice, mas às coisas simples da vida. No entanto, o que pode ser simples ou bizarro para mim, pode não ser para você.

     É politicamente correto respeitar as diferenças, mas na prática, a teoria é BEM outra. De maneira geral, formulamos juízo como certo o que nos é familiar, as coisas que fazem parte de nosso cotidiano e avaliamos outras realidades de maneira negativa, simplesmente por serem diferentes. Entretanto, as pessoas pensam, sentem e agem de formas diferentes. Achamos, no mínimo, curioso e desenvolvemos uma certa resistência quando temos contato com interesses divergentes dos próprios, mas a vida é permeada por tais diferenças sobre as quais nos exige discernimento e concepção. Outras culturas, novos tipos de relacionamentos que não se enquadram aos padronizados, uma visão política da qual não partilhamos, o gosto por um estilo musical diferente, uma opção sexual diferente da nossa, outros times de futebol, outras etnias, outras religiões, etc. Talvez o critério religioso seja um dos mais difíceis com o qual temos de lidar, afinal, não raro, observamos extrema intolerância a respeito, cada um julgando sua religião como melhor e "a certa". Tal divergência causa guerras há milênios e parece que não conseguimos evoluir muito desde então. A questão racial também se incorpora aqui, e algumas pessoas ainda consideram-se melhor ou pior por ter determinada cor de pele ou ser de uma certa região geográfica.

    Mesmo quando nos auto proclamamos como "mente aberta", sem dúvida carregamos os próprios paradigmas e (pré)conceitos. Não é nada fácil lidar com uma opinião divergente.  As diferenças. Ah! Como pode ser difícil conviver com elas... Temos como base nossas próprias verdades, as quais muitas vezes julgamos como absolutas. Talvez, apenas talvez, sejamos cingidos por uma certa dose de narcisismo, fazendo-nos crer que, o que nos serve, o que se inclui ao nosso contexto também é extensível às outras pessoas. E, possivelmente, essa mesma visão narcísica nos impute certa limitação e engessamento, deixando-nos ingenuamente na expectativa de que o outro absorva o mundo da mesma forma que nós. Entretanto, cada pessoa no decorrer da vida desenvolve sua história pessoal, construindo sua realidade segundo a própria vivência. Eu sou diferente de você, que é diferente de fulano, que é diferente de sicrano, que é diferente de beltrano...
    
     Ao ponderar sobre as diferenças, devemos considerar o relativismo, afinal, cada qual cria a própria verdade, sua maneira de ser e se colocar no mundo, determinando a construção do sentido próprio para a vida. E, principalmente, racionalizarmos de que não existe uma verdade absoluta. Sua verdade pode não ser a minha, e a minha, a sua. É relativo.
       
     É necessário certo exercício para conviver minimamente bem com as diferenças, e não me refiro a aceitá-las, talvez isso seja utópico, mas em respeitá-las, sim, não tem jeito. A conscientização de que as diferenças fazem parte da vida e ninguém é melhor ou pior por ser diferente emerge para uma melhor convivência. Contudo, pode ser interessante o desprendimento das próprias opiniões, afinal, não deixa de somar ao próprio conhecimento lidar com o diferente. Outros olhares, outras ideias e outras opiniões podem acrescentar e ampliar conteúdos.

    Compreender o outro talvez seja exigir muito, entretanto, respeitar este em sua maneira pessoal de ser é o melhor caminho para conviver com o diferente. Afinal, mesmo sendo uma grande dificuldade em nossas relações interpessoais e de mundo, as diferenças nos adornam e nos tornam interessantes em nossa condição mais peculiar: ser humano, único e ímpar.      

  


  

domingo, 5 de maio de 2013

O mito da maternidade


     Tenho como lembrança de minha maior e mais profunda auto reflexão, uma das noites em que passei na maternidade do hospital após ter dado a luz. Éramos apenas nós duas no meio da madrugada e sentei-me perto da janela do quarto, pensativa. Dentro de minhas divagações, questionei se estaria pronta para aquela nova fase de minha vida, afinal, não era mais apenas filha, mas agora também era mãe. Indagava se teria os recursos necessários para cuidar e educar aquela incrível criaturinha que dormia em meus braços. Entretanto, uma questão me afligia com considerável intensidade: um amor incondicional permearia nossa relação? 

     Apesar da maternidade ser uma condição inerente à mulher, não é determinada por si e em si, apenas. Sim, somos capazes de gerar um outro ser e parir, mas ser mãe não se constitui unicamente em tal ato, assim como o sentimento materno de cuidar, proteger e, sobre tudo, amar, não se fundamenta de maneira inata para todas as mulheres de modo absoluto. Não raro observamos que muitas não possuem tais determinantes e, mesmo havendo um hipotético instinto materno em cuidar e proteger, o sentimento não está necessariamente contextualizado, ou vice-versa.

     Através da cultura vivenciamos um certo olhar romântico e idealizado o qual circunda a maternidade, como se apenas estar grávida ou mesmo ter um filho transforma o mundo todo em cor de rosa e, por conseguinte, somos atravessadas por um sentimento avassalador e incondicional, imputando uma condição a priori à mulher. E quando isso não acontece? Quando simplesmente precisamos nos adaptar e observamos cair por terra, inertes, o clichê da maternidade?

     A gravidez carrega a simbologia intrínseca de continuação da vida, atribuindo à mulher a responsabilidade maior de sua manutenção. Insegurança e receio são sentimentos naturais que podem emergir durante a gestação e/ou mesmo depois de dar a luz. Desponta-se a enorme necessidade de expressão a respeito, principalmente por conta do abismo entre realidade e idealização, desconstruindo o mito da maternidade sobre o qual somos imbuídas. Muitas mulheres sentem culpa e questionam até mesmo sua idoneidade e caráter quando não desenvolvem, juntamente com a maternidade, sentimentos desejados e correspondentes às expectativas. É muito mais comum do que se imagina e do que se fala ampla e abertamente a respeito que emoções ambíguas nos atravessem durante este período. Ter um outro ser crescendo dentro de você pode não ser tão poético, mesmo quando a gravidez é bem-vinda. Receio e dúvida se o bebê nascerá perfeito e "normal" são comuns. Sem falar do parto, que, apesar de ser um fenômeno natural para toda espécie animal viva, não é um ato isento de certa dose de agressão para a fêmea. A mulher necessita se adaptar a esse novo papel no seu meio ambiente e na sociedade, e a perda da identidade pode se inserir neste contexto onde esta passa a ser "a mãe de alguém". 

     Desmistificando a fantasia e vivenciando de maneira mais consciente, a responsabilidade para com o outro é tão importante quanto sentimento e dedicação. Laços de afeto, carinho e cuidado se estabelecem no desenvolver da relação e não a partir de um teste cujo resultado foi positivo, somente.

     Ouso dizer que, em uma relação onde o amor é conquistado diariamente, a cada ato de alimentar o bebê com o  próprio recurso, olho no olho, noites em claro nas quais apenas aqueles dois seres, mãe e filho, testemunham o transcorrer da madrugada, em companhia e cumplicidade, ou em cada simples ato de cuidar daquela pequena pessoinha, talvez, esta relação se consolide de maneira mais plena, saudável e coerente.

     O amor incondicional tal como preconizado nem sempre é a priori, mas cresce durante o processo relacional e, talvez, seja até mais verdadeiro quando construído e desenvolvido juntamente com o estabelecimento do vínculo entre mãe e filho. Laços de afeto podem estar presentes desde o primeiro momento, mas se intensifica com a relação. 

O amor não é incondicional, apenas, mas condicionado e condicionante. O amor é conquistado dia a dia na convivência e por mérito próprio daquele pequeno e incrível ser.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

A redenção do morrer


     Recentemente assistia uma reportagem na tevê sobre a morte repentina do cantor de uma banda de rock famosa no Brasil, cuja abordagem envolvia a forma misteriosa do acontecido, assim como também ressaltava suas músicas de sucesso, o perfil contestador, as confusões que se envolvia e peculiaridades do gênero. A notícia apresentava um caráter pesaroso e, apesar de enaltecer as qualidades do artista, também enfatizava seus valores enquanto pessoa. Minha filha adolescente, que estava por perto, comentou que se referiam a ele daquele modo somente porque havia morrido. Concordei com ela e partilho do mesmo pensamento. É notório a capacidade que a morte tem de nos sensibilizar e deixar comovidos ante o fato. Nos inclinamos a reverenciar a memória  dos que se foram de forma quase poética. No mínimo há um atenuante póstumo. É cultural.

    Apesar de ser fã de suas músicas por abordar de maneira questionadora determinados valores da sociedade, reconheço que sua imagem não era bem aceita dentro dos estereótipos impostos, e sua fama era de roqueiro tatuado e drogado. Talvez, neste caso, tenha corroborado ainda mais por ter sido uma morte repentina e prematura - ele tinha pouco mais de 40 anos - o que contribui para um pesar maior, creio. Nos dias que seguiram sua morte as músicas da banda "bombaram" direto nas rádios. Ainda bem, gosto delas.

     Todavia, o que chama atenção neste caso, como em tantos outros que circundam alguém que morreu, é a simbologia intrínseca que permeia a morte. Parece que, ao morrermos, somos instituídos de determinado "poder" e revestidos por uma certa transcendência, quase uma redenção. Existiria no morrer a absolvição dos males pelos quais somos atravessados em vida? Tendemos a nos referir sobre as pessoas mortas como se estas estivessem acima do bem e do mal, e, diria até que incorporam um certo nível de sublimação. Há uma valorização "post-mortem", a qual podemos verificar na relação de artistas célebres que em vida viveram na miséria e depois de morrer tiveram suas obras imensamente valorizadas.

     Mas que "poder" é este? Ao tomarmos consciência da morte de alguém próximo, somos expostos à consciência de nossa própria finitude, a possibilidade efetiva da própria morte. Vivenciamos esta através da morte do outro e sabemos que é bastante democrática, não se importando com idade, sexo, raça, condição sócio-econômica, etc. De uma hora para outra sabemos que podemos deixar de existir. Seria esse o motivo pelo qual ganhamos o caráter sublime após a morte? Afinal, poderia ser qualquer pessoa e, um dia, certamente será. Desta forma, concedemos e imputamos à figura de quem se foi um olhar mais suave e respeitoso. Respeito... Talvez essa seja a palavra. Parece que quem morre passa a um nível superior e, independente de quem  tenha sido, é desrespeitoso falar mal do falecido. Ao mencionarmos alguém que morreu, principalmente quando engloba uma visão negativa, é comum fazermos certas referências quase como desculpa, do tipo: "Que Deus o tenha" e outras afinidades. Diante disso, a morte remete à concessão de quase "isenção de julgamento". Talvez, quando nos conscientizamos da nossa própria temporalidade na morte do outro, concedemos-lhe tal caráter de respeito e comoção.

      Em nossa sociedade a morte ainda caracteriza-se como um tabu e não sabemos lidar ou mesmo falar a respeito. Cada vez mais procuramos postergar a vida, tentando "driblar" o inevitável. Com o avanço da ciência, observamos a necessidade que temos de sua manutenção, mesmo ante a possibilidade de uma sobrevida, apenas. Sem falar em câmara de congelamento, antioxidante, etc. Às vezes, quando estou absorta em tais divagações, me remeto ao filme "A morte lhe cai bem", onde as personagens estão caquéticas, despedaçadas, mas ainda vivas!

     Talvez esse seja o motivo pelo qual nos apegamos tanto às religiões, cujo conforto se fundamenta na possibilidade de continuação da vida após a morte. Afinal, tal premissa se estabelece nas mais variadas vertentes, seja no cristianismo, judaísmo, islamismo, hinduísmo, espiritismo, budismo e tantos outros "ismos" possíveis existentes.  Eu mesma confesso que fico muito confortada com tal possibilidade.

     A morte representa a finalização de um ciclo de modo irredutível, somos conscientes de que não podemos voltar, simplesmente e, concomitante, tal ciclo talvez configure o bem o qual mais valorizamos, a própria vida. Não somos preparados, do nível afetivo/emocional ao cultural, para tais desprendimentos. Refletimos sobre a morte quando somos atravessados por esta vivência em nosso círculo mais próximo ou de forma mais contundente, explícita. A morte em si é um mistério e seu caráter desconhecido talvez influencie tal temor. Nunca ninguém voltou de lá para contar como é, ao menos, efetivamente. Tudo o que temos são nossas crenças pessoais e confabulações a respeito. E nos apegamos às mesmas, veementemente.           
     
     No entanto, paradoxalmente, a valoração da vida se estabelece e sustenta-se na própria morte. Afinal, sem essa consciência de finitude, da temporalidade sobre a qual somos/estamos imbuídos, protelaríamos todas as nossas atitudes e ações em uma existência prolixa. Ainda bem que podemos finalizar e concluir esse ciclo. E vamos finalizá-lo, sem dúvida. Talvez nosso grande temor em relação a morte seja justamente a dúvida se que estamos fazendo tudo que podemos e gostaríamos de fazer, e da melhor forma possível. 

     Na verdade, uma não anula a outra, mas complementam-se. Morrer é uma realidade. Viver são infinitas reais possibilidades.